Como faço o sabonete que usamos aqui em casa

Uma receita simples, feita com ingredientes naturais, que faz parte da rotina da nossa família.

Quando a Tiê nasceu, eu queria que o cuidado com a pele dela fosse o mais simples possível: sem excesso de ingredientes, sem perfumes intensos e sem a necessidade de comprar um produto diferente a cada fase. Foi assim que essa receita começou a nascer.

Ao longo dos anos trabalhando com plantas e cosméticos naturais, aprendi que, muitas vezes, o melhor cuidado está justamente na simplicidade. Não acredito em fórmulas milagrosas, mas acredito na potência de conhecer os ingredientes que usamos, entender como eles se comportam e participar da criação daquilo que colocamos sobre a nossa pele.

Esse sabonete faz parte da nossa rotina. É o sabonete que usamos aqui em casa e que volto a produzir sempre que a última barra está chegando ao fim. A receita foi sendo ajustada aos poucos, conforme fui conhecendo melhor os óleos, as manteigas e o comportamento de cada ingrediente. Hoje compartilho essa versão porque ela funciona muito bem para nós, mas espero, acima de tudo, que ela sirva de inspiração para que você também descubra o prazer de criar algo com as próprias mãos.

Antes de começar

Antes de irmos para a receita, preciso dizer uma coisa importante.

A saboaria artesanal é um processo seguro quando compreendemos como ele funciona e seguimos alguns cuidados básicos. Não tenha medo da soda cáustica, mas tenha respeito por ela. É justamente esse ingrediente que permite que aconteça a saponificação e, ao final do período de cura, ela é completamente consumida pela reação química, dando origem a um sabonete seguro para a pele.

Por isso, utilize sempre equipamentos de proteção individual, como luvas, óculos e avental, trabalhe em um ambiente bem ventilado e evite o contato direto da soda com a pele. Durante o preparo da lixívia, lembre-se sempre da regra mais importante da saboaria: adicione a soda sobre a água, nunca a água sobre a soda.

Outro cuidado fundamental é utilizar hidróxido de sódio P.A. (Puro para Análise), com pelo menos 97% de pureza. Evite utilizar soda de supermercado ou produtos de procedência desconhecida, pois eles podem conter impurezas que comprometem tanto a qualidade quanto a segurança do sabonete.

Também recomendo utilizar apenas utensílios de vidro resistente ao calor, aço inox, panela esmaltada ou silicone. Evite alumínio, cobre e outros metais que possam reagir com a soda.

Na saboaria, cada ingrediente precisa ser pesado com precisão. Não utilize medidas em xícaras ou colheres, pois o cálculo da soda depende exatamente da quantidade de cada óleo presente na receita.

A receita

Esta é a formulação que utilizo atualmente. Ela resulta em um sabonete firme, delicado, com espuma cremosa e muito agradável para o uso diário. Caso você não encontre manteiga de murumuru, deixei uma segunda versão utilizando manteiga de cacau, que também apresenta um excelente resultado.

Receita com manteiga de murumuru

  • 300 g de óleo de coco
  • 200 g de manteiga de murumuru
  • 200 g de azeite de oliva
  • 105 g de hidróxido de sódio
  • 257 g de água (preferencialmente a destilada)
  • 30 g de óleo macerado de calêndula
  • 1 g de oleoresina de alecrim (opcional)
  • 5 g de óleo essencial de laranja-doce
  • 5 g de óleo essencial de lavanda
  • nessa receita utilizei 30 g de argila rosa (opcional)

Opção com manteiga de cacau

  • 300 g de óleo de coco
  • 200 g de manteiga de cacau
  • 200 g de azeite de oliva
  • 99 g de hidróxido de sódio
  • 243 g de água (preferencialmente a destilada)
  • 30 g de óleo macerado de calêndula
  • 1 g de oleoresina de alecrim (opcional)
  • 5 g de óleo essencial de laranja-doce
  • 5 g de óleo essencial de lavanda

Mãos na massa

Gosto de pensar que o preparo começa antes mesmo da mistura dos ingredientes. Organizar o espaço, separar os utensílios e pesar cada ingrediente com calma faz parte do processo. Quando tudo está pronto, a fabricação acontece de forma muito mais tranquila.

Comece preparando a lixívia. Pese a soda e a água em recipientes separados e adicione cuidadosamente a soda sobre a água, misturando até a completa dissolução. Em seguida, reserve a solução para que esfrie até aproximadamente 50 °C.

Enquanto isso, pese todas as gorduras. Derreta primeiro a manteiga escolhida e, depois, acrescente os óleos líquidos, misturando bem até que tudo esteja homogêneo. Aguarde também até que essa mistura atinja aproximadamente 50 °C.

Quando as duas fases estiverem na mesma temperatura, despeje lentamente a lixívia sobre os óleos e misture delicadamente. Em seguida, utilize o mixer alternando pequenos pulsos com movimentos circulares até atingir o traço — o momento em que a massa adquire a consistência de um pudim leve e os respingos permanecem visíveis por alguns segundos sobre a superfície.

Nesse ponto, adicione a oleoresina de alecrim, o óleo macerado de calêndula e os óleos essenciais. Misture novamente até incorporar todos os ingredientes.

Despeje a massa na forma, bata levemente sobre a bancada para eliminar possíveis bolhas de ar e mantenha a forma aquecida, envolvendo-a em um pano ou colocando-a dentro de uma caixa de isopor. Deixe descansar por cerca de 24 horas antes de desenformar e cortar as barras.

O tempo da cura

Depois de cortado, o sabonete ainda precisa descansar. Essa etapa é conhecida como cura e é tão importante quanto todo o processo de fabricação.

Durante esse período, o sabonete perde parte da água, ganha dureza, estabiliza o pH e finaliza completamente a saponificação. Por isso, deixe as barras em um local seco, arejado e protegido da luz direta, com espaço entre elas para que o ar circule livremente. Evite cobri-las com plástico ou armazená-las em locais úmidos.

Para esta receita, recomendo um período de cura de 20-30 dias antes do uso.

Por que escolhi esses ingredientes?

Cada ingrediente presente nesta receita desempenha uma função específica.

O óleo de coco é responsável pela limpeza e pela espuma. A manteiga de murumuru ou a manteiga de cacau, na segunda versão, ajuda a formar uma barra firme e duradoura, proporcionando uma sensação agradável durante o banho. O azeite de oliva traz suavidade e contribui para um sabonete mais delicado.

O óleo macerado de calêndula é um dos ingredientes de que mais gosto nesta receita. A calêndula acompanha há muito tempo os cuidados tradicionais com a pele e gosto de mantê-la presente nas preparações que fazemos aqui em casa.

A oleoresina de alecrim atua como antioxidante natural, ajudando na conservação dos óleos da formulação.

Por fim, escolhi os óleos essenciais de lavanda e laranja-doce pelo aroma suave e acolhedor. Mais do que perfumar o sabonete, eles fazem parte da experiência do preparo e transformam o banho em um pequeno ritual de cuidado.

Antes de ir…

Durante muitos anos eu vendi esse sabonete. Hoje, sinto alegria em compartilhar a receita.

Acredito que alguns conhecimentos ficam ainda mais bonitos quando circulam e encontram novas mãos. Talvez você faça exatamente esta receita. Talvez adapte alguns ingredientes e descubra um caminho diferente. E tudo bem. É assim que muitos saberes continuam vivos.

Se você decidir preparar esse sabonete, vou ficar feliz em saber como foi a sua experiência.

No fim das contas, talvez o mais bonito da saboaria nunca tenha sido apenas o sabonete pronto, mas tudo aquilo que acontece enquanto ele é feito.

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Nágila Haick

Trabalho com a terra, ervas medicinais e saberes ancestrais há mais de 10 anos, oferecendo experiências sensoriais por meio do resgate de medicinas ancestrais. Estudei agronomia, fitoterapia, magia natural (pela tradição afro-brasileira), aromaterapia, cosmetologia e agricultura sintrópica. Sou herbalista e combino diferentes fontes de conhecimento para apoiar e compartilhar saberes com outras mulheres.

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